Nós (Gustavo Camarão e Guilherme Sodré) pretendÃamos fazer essa viagem para Marrocos há algum tempo. A princÃpio pensavamos em algo convencional, ir de avião diretamente até o paÃs africano. Certo dia, numa conversa com o John Magrath no msn toquei no assunto. Ele disse que não fazia uma trip para surfar há bastante tempo por causa dos estudos. Havia saÃdo do Brasil para cursar letras em uma faculdade em Biarritz, França.
Na mesma hora que eu mencionei que pretendia fazer essa viagem com o Guilherminho, ele disse que nos encontraria lá de carro, e falou, empolgado, que a cinco dias atrás tinha comprado um carro tipo trailer, Kombi ano 83. Na mesma hora eu pensei que poderÃamos encontra-lo na França para descer na Kombi até o Marrocos. A animação foi geral, John ainda disse que nós três conseguirÃamos morar tranquilhamente no carro e assim a viagem iria ser mais barata.
Na verdade, até essa conversa no msn, já tinha praticamente desistido dessa viagem. Mas quando rolou o papo da tal Kombi percebi que poderia ser uma aventura bem diferente das que já tinha vivido. Me empolguei bastante. Depositava certa confiança no fato da Kombi ser a Diesel, e isso me fez acreditar que ela estava em bom estado, pois normalmente esses veÃculos duram muito mais tempo que os tradicionais, a gasolina.
Agora sim estava motivado, iria conhecer França, Espanha, Portugal e Marrocos. Até então não conhecia nada da Europa. Porra! Ia ser animal!
Quanto ao carro, John só comentou que estava com um probleminha no motor de arranque, mas que iria levar até o mecânico e resolver isso. Ou, na pior das hipóteses, terÃamos que empurrar o carro sempre para liga-lo. Tranquilho!
Malas prontas. Partimos para a França!
FRANÇA

Chegada na França. Talvez com uma dessas bicicletas tivessemos mais chances de chegar por terra até Marrocos...
O primeiro perrengue foi logo que chegamos na França. John não conseguiu comprar a passagem de trem para Biarritz no mesmo dia do voo. Eu e Guilherminho tivemos que arrumar um hotel para pernoitar e pegar trem no dia seguinte logo pela manhã. As referências que conseguÃmos de hotéis baratos eram longe do aeroporto e pegamos um metrô. Cheio de bagagem e com várias pranchas, foi preciso mudar de trem várias vezes, arrastando nossas bagagens pelas estações, subindo e descendo escadarias absurdas. Quando chegamos ao hotel, no qual havÃamos feito reserva, estava lotado e nosso nome não constava na lista de reservas. A solução foi andar mais alguns quarteirões, novamente arrastando bagagens e pranchas, até outro hotel.
Acordamos as 4:30 da manhã para conseguir chegar na estação as sete, hora em que nosso trem para Biarritz iria sair. Estava muito, mas muito, frio! Ao chegarmos no metrô batemos de cara na porta, ainda era cedo demais. Ficamos esperando no meio da rua ( deserta e fria ) até abrir. Enfim conseguimos pegar o metrô e depois o trem, e estavamos a caminho para encontrar o John. Estava ansioso, com saudade desse muleque, que não via há uns dois anos, e também queria conhecer nossa “super-máquina”.
CHEGADA ATÉ BIARRITZ
Foram oito horas de trem ate Bayone, uma cidade que fica ao lado de Biarritz, John iria nos buscar lá. Foi hilária a cena que nós vimos ao chegar, John em uma Kombi verde-abacate buzinandoe acenando! Alà seria nossa casa nos próximos quinze dias. Ficamos uns cinco dias em Biarritz pra conhecer o lugar, foi bom pois fomos sentindo o carro e deu pra ver que não seria nada facil chegar no Marrocos. A Kombi era meio temperamental, nunca ligava e sempre tinhamos que empurrar pra “pegar no tranco”. Isso porque o John disse que o mecânico tinha consertado o problema da ignição, sem falar que tinha feito um gatilho com uma rolha de vinho para a água circular no radiador.
A PARTIDA
Chegou o dia de colocarmos o pé na estrada. As quatro da manhã os três estavam de pé, terminando os preparativos do carro, arrumando pranchas e malas. Uma coisa nos preocupava bastante, seriam mais de dois mil quilômetros até Marrocos e, como disse anteriormente, o carro não ligava direito e ainda por cima estava vazando água.
SaÃmos por volta das cinco da manhã, me lembro de ver um termômetro marcar 0 gráus.
Logo nos primeiros cinco minutos o carro ferveu, estacionamos em uma ladeira, já pensando em usar a descida caso ele precisasse “pegar”. Colocamos água e pouco depois começou a sair muita fumaça do cano de descarga. Sem exageros, nunca havia visto nada igual. Nesse momento apelidamos o carro de “Angra 3″, uma usina nuclear prestes a explodir.
O CAMINHO
Paramos para abastecer na divisa da França com a Espanha ( paÃs Basco ) e caÃmos na estrada, até onde o combustÃvel desse. Mas antes fosse o combustÃvel que tivesse acabado.
Lembramos de parar rapidamente para calibrar os pneus depois de uns cem quilômetros percorridos. Simplesmente o carro não quis ligar, o jeito foi empurrar e estava um frio desgraçado. Após um esforço da galera, conseguÃmos pegar um bom ritmo na estrada novamente, não pretendÃamos mais parar até Portugal. O plano era ficar lá uns dias e pegar a rota novamente até o Marrocos.
Doce ilusão. Por volta de 300 quilômetros de asfalto chegamos em uma serra interminável e o carro começou a aquecer novamente. Paramos no acostamento, mas o detalhe foi que paramos em uma subida, como seria se o carro não quisesse ligar? Dito e feito, depois de colocarmos mais água, o “Angra 3″ não quis ligar de jeito nenhum. Tentamos fazer ele pegar no arranque de ré, mas nada. Depois de inúmeras tentaivas, incrivelmente, ele pegou. Mas também começou a cuspir água misturada com óleo pelo cano de descarga. Não sabÃamos o que pensar, mas o incosciente coletivo dizia que a merda era eminente. Entramos no carro preocupados, mas sem ter muito o que fazer. Não subimos nem três quilômetros e a usina nuclear ferveu novamente. Fomos olhar o motor e toda a lataria ao seu redor estava totalmente preta de óleo. Dalà seria muito difÃcil continuar…
A VOLTA
Chamamos um reboque e aà vÃmos que os problemas ainda estavam começando. O cara queria 150 euros, adiantados, para tirar nosso carro dalÃ. Se não fosse assim, não tinha conversa. E foi o que aconteceu, mandamos ele embora sem mais conversas e ligamos de novo para o serviço de assitência da estrada pedindo um novo reboque. O John conversou com a atendente e deu o número do seguro do carro, que não estava no nome dele. Mas felizmente ele conseguiu se passar como titular do carro sem maiores problemas. Nossa sorte é que ele está falando francês muito bem, fica difÃcil desconfiar de algo. Mandaram um reboque e um taxi, que iria nos levar de volta para a França. Como o carro era velho o valor do seguro só cobria a nossa volta. No fim das contas fomos repatriados (na França), mas o “Angra 3″ ficou na Espanha, com a promessa de chegar uns três dias depois. Mas não foi bem assim. Descobrimos depois o único lugar que o seguro poderia levar o carro seria para o ferro velho. Se quisessemos que ele voltasse para a França teria que ser por nossa conta. Novamente ligamos para o serviço de reboque onde o orçamento foram de suaves 800 euros. ImpossÃvel.
Um amigo nosso disse que poderia ir buscar o “Angra 3″, ele tinha carteira de caminhoneiro e pagariamos só o aluguel do reboque e combustÃvel. Com isso economizamos 400 euros.
A SOLUÇÃO
Deixamos o carro no mecânico, que já adiantou que o serviço não ficaria por menos de 500 euros.
Não houve escolha, era consertar o carro ou continuar a viagem, não havia dinheiro para os dois. Optamos por continuar a viagem pois era importante chegar até Marrocos, estavamos alà para isso. Passamos o cartão e nos enchemos de dividas mas chegamos o território africano. Roubada máxima que nunca mais quero passar!
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