edições | notícias | contato

Home > 42 | Materia > Publicado em 23 de dezembro de 2009

Waimea: Modo Sobrevivência

Esse foi um ano de redenção nas ondas havaianas. Depois de três temporadas pra lá de inconsistentes, parece que o El Niño voltou a atuar forte no Pacífico Norte porque o North Shore não parou de bombar desde meados de setembro. Foi um ano tão único, que testemunhou nas águas de Waimea o evento mais raro do calendário do surfe mundial, o Quiksilver In Memory of Eddie Aikau. Nem precisa dizer que o mar estava enorme. E o mais impressionante, ficou assim por mais de um dia. As bombas não deram trégua, botando a prova o culhão de todos os que andavam com uma prancha embaixo do braço pela Kamehameha.

Pode estar balançado, mexido e até fechando a baía, mas Felipe Cesarano não deixa de marcar presença quando Waimea chama.. Foto: Bruno Lemos

Pode estar balançado, mexido e até fechando a baía, mas Felipe Cesarano não deixa de marcar presença quando Waimea chama.. Foto: Bruno Lemos

Os brasileiros, como sempre, estavam presentes e, como sempre também, não faltou disposição, coragem e um altíssimo nível de surfe. “A galera representou na água, todos estão de parabéns, mostraram vontade de surfar, pegaram suas ondas, se divertiram e ficaram com medo também! Destaque para o Felipe “Munga” que incentivou a nova geração para entrar nesse mar!” analisou Stephan Figueiredo, o Fun. Entre o pelotão brasileiro estavam os jovens, já velhos conhecidos da galera, Felipe “Gordo” Cesarano, Yan Guimarães, Je Vargas, Junior Faria, Thiago Camarão, Ricardinho Santos, além do uruguaio Marco Giorgi.

Um dia de Waimea não é um dia comum, pode ter certeza. Para início de conversa, é um dia que começa dias antes. “…a princípio estávamos muito nervosos porque não sabíamos ao certo até que tamanho poderia chegar e por isso tornou-se ainda mais sinistro.” confessou Ricardinho. A tensão pré-Waimea só acaba realmente dentro do mar. Nesse ponto, ela é esquecida devido a outros problemas que você estará a enfrentar.

O capitão Ricardinho Santos colocando seu barco pra funcionar por trás do pico. Foto: Bruno Lemos

O capitão Ricardinho Santos colocando seu barco pra funcionar por trás do pico. Foto: Bruno Lemos

O primeiro dos problemas é a prancha, que deve ser bem específica para as condições. Stephan, que já é macaco velho quando o assunto é Havaí, era dos poucos que tinha equipamento próprio: “Há dez anos que tenho a mesma prancha para surfar esse tipo de onda, é uma 10′0” do Biro, que por sinal é mágica, nunca me deixou na mão.” O resto da galera teve que se virar e arrumar algum tocão emprestado, o que representa mais um motivo de preocupação, não quebrar a prancha do amigo. Alguns dão sorte, como Junior: “Graças ao Bruno Lemos, que me emprestou sua 11 pés, pude curtir esse swell, claro que se quebrasse teria que comprar outra pra ele né! Mas ele foi super tranquilo e me emprestou sem problemas.” Outros precisam ter cuidado redobrado, caso do Thiago Camarão: “Eu e quase ninguém tinha prancha para surfar lá, cada um deu o seu jeito e arrumou uma bem grande. Eu arrumei no primeiro dia com o Kahea, que é dono da casa onde estou ficando este ano com o Marco.”

Prancha pronta, parafina no deck, cordinha presa com aquele cuidado redobrado, é hora de botar os pés na areia de Waimea e sentir um pouco do mar. É nesse momento que podem surgir dores pelo corpo ou lembranças de compromissos inadiáveis. Quanto maior a série que passa, mais desistências. Tem gente que fica horas olhando e não entra. Exatamente por isso, a pilha da galera foi não perder muito tempo: “Cheguei bem cedo, ainda clareando, quando vi que o bicho estava pegando corri para o  carro, peguei a prancha e fui para a água, se olhar muito eu acabo peidando.” Explicou “Gordo” Cesarano. “No outro dia chegamos na praia e tinham uns quinze caras com cara de c* dizendo que não dava mais para entrar. Nessa o Ricardinho e o Marco se jogaram na água junto com uns locais e mais uns locos. Depois geral entrou.” completou Thiago Camarão.

Stephan Figueiredo e Shane Dorian dividindo as honras. Foto: Bruno Lemos

Stephan Figueiredo e Shane Dorian dividindo as honras. Foto: Bruno Lemos

A verdade é que chegar no outside de Waimea não é das missões mais difíceis. Lá fora, o “clima” mostra o tamanho do mar. “Estava tenso, não era um dia descontraído nem de diversão. Os únicos dando risada na água eram o Bruce Irons, Shane Dorian e o Kala, e mesmo assim fechavam a cara quando subia a série. Quando foi caindo a tarde então mais ninguém estava de brincadeira, todo mundo sabia que a coisa estava bem séria.” lembra Junior. Em compensação, mares grandes costumam assegurar o respeito mutuo. “Todos que estavam lá fora merecem respeito, e sabem disso. Foi muito bom dividir o  pico com os maiores big riders do mundo, algo inesquecível.” disse o “Gordo”.

Nessas condições ninguém chega já botando a cara a tapa, é bom ficar um tempo no canal e passar umas séries para ir se acostumando. “Aos poucos fomos nos soltando na água, Ricardinho pegou uma boa com o Fun e deu um mortal sinistro. Eu dividi uma com o Jê, que foi catapultado no drop, foi irado! O Marco pegou uma onda muito animal no segundo dia! Sem exagero, tinha uns 25 pés!” contou Camarão, que mereceu elogios de Junior: “Das ondas que eu vi, a do Camarinha foi a mais irada. Um drop vertical e ele botou pra baixo. Ficou na memória.”

Mas não tem jeito, entrou na água é para se molhar. Uma hora ou outra alguém vai passar algum perrengue, é inevitável. “Quando vi a série apontando no outside já era tarde porque tinha remado na da frente e não entrei. Não olhei muito, só abaixei a cabeça e remei com tudo que tinha. Quando estava quase chegando na onda levantei a cabeça olhei de novo, vi todo mundo passando no limite, mas ainda faltava um bom pedaço para eu chegar junto deles. Aquele monstro já estava dobrando e fazendo uma esquerda gigante no meio da baía. Abaixei a cabeça de novo e tentei falar pra mim mesmo: “A onda vai quebrar, isso ta acontecendo agora, é agora.” Depois foi aquele nó na gargante e entrei no “modo sobrevivência”. Remei mais forte ainda e quando cheguei perto da base subi na prancha e pulei, mergulhei e fui arrastado alguns metros pela onda mas graças a Deus não voltei com o lip e consegui sair do outro lado.” relatou Junior. As vezes, situações mais difíceis puxam os limites, como aconteceu com Ricardinho: “Estava quase ficando escuro e o salva vidas veio de jet e falou “é a ultima chamada, quem quiser sair vem comigo, faltam dez minutos para escurecer, nós vamos embora, quem não quiser vir é melhor que esteja preparado para pegar onda, tchau”. Eu escolhi ficar e vi a galera toda pegando onda pra sair, quase escuro consegui pegar uma irada, acredito que a melhor onda que peguei.”

Até para assitir é preciso um pouco de coragem. Foto: Bruno Lemos

Até para assitir é preciso um pouco de coragem. Foto: Bruno Lemos

No fim desses dias de ondas grandes, vários sentimentos e relatos tomam conta de quem enfrentou a fúria. “A melhor parte de cair em um mar desses é quando você bota o pé na areia e vê que está tudo certo. É uma alegria, missão cumprida! Díficil de esquecer.” disse Ricardinho. “Foi bem intenso, nunca senti tanto medo na vida, nem de avião, nem de tubarão, assombração, sei lá. Nada me deu tanto medo na vida. Eu era um pinto no lixo ali na frente daquele monstro. Se aquilo tivesse me pegado de jeito nem sei o que ia acontecer.” conclui Junior sobre a morra que tomou na cabeça. No fim das contas, “Valeu o desafio!”, finaliza “Gordo”

Confira a edição completa desta matéria: clique aqui.

VN:F [1.7.5_995]
Confira também:

Envie uma carta para a Revista Blackwater

Nome:

Email:

Mensagem:

Desejo receber novidades da BlackWater

Deixe seu Comentário


Spam protection by WP Captcha-Free