Recebemos do leitor Ricardo Facchini a seguinte sugestão:
“Gostaria de ver uma matéria, se possível com muitas imagens, sobre o trabalho dos fotógrafos dentro d’água. Acho impressionante o posicionamento de alguns deles na arrebentação e fico curioso para ver os movimentos para fugir das vacas sem perder o melhor ângulo das fotos. Imagino como deve ser fotografar em Teahupoo, Pipeline, etc. Abs”
Como o pessoal da Blackwater também fica só na imaginação quando o assunto é fotografar dentro d’água, principalmente ondas como Teahupoo e Pipeline, entramos em contato com alguns colaboradores nossos que consideramos “experts” no assunto. Beto Paes Leme, Clemente Coutinho, Bruno Lemos, Pedro Tojal, Ricardo Borghi e o gringo Tim McKenna tiraram a dúvida do Ricardo e ainda responderam mais algumas perguntas nossas. De quebra, como não podia faltar, eles nos mandaram algumas imagens selecionadas para quem curte uma bela foto de dentro d’água. E quem não curte?

Ficar dentro d'água não é nada fácil, vejam o distância dos corais e a força de empuxo da onda, mas vejam, acima de tudo, a beleza única de um momento desses. Foto: Mckenna
O BOM FOTÓGRAFO
Não se trata apenas de saber nadar bem ou apenas ter um bom equipamento, nem tampouco só possuir um conhecimento ímpar do mar. Para ser um bom fotógrafo aquático são necessárias diversas habilidades e, principalmente, saber combinar todas elas no momento certo. “Primeiro tem que saber fotografar. Depois é SÓ nadar bem, ter um bom equipamento, conhecimento do pico e do surfista a ser fotografado.” resumiu Tojal. Bruno Lemos, residente do Havaí, destaca, antes de tudo, a vontade: “Primeiro e principal de tudo é a vontade…você tendo vontade e um equipamento, aos poucos entra no rip e fica com um preparo físico legal.” Outro acostumado a ondas pesadas é Tim McKenna, fotógrafo “oficial” de Teahupoo: “Você precisa nadar bem nas ondas e ser capaz de prender a respiração por um bom tempo. Precisa conseguir colocar seu corpo em posições estranhas. Ter resistência é essencial já que muitas sessões podem durar horas de natação constante. Também precisa surfar ou entender muito bem como funcionam as ondas para antecipar a posição do surfista e se posicionar corretamente.” Para Clemente Coutinho: “Um bom treinamento de natação e apnéia ajuda bastante na autoconfiança.”

Surfista (Manoa Drollet) e fotógrafo em um dia grande em Teahupoo. Disposição em dose dupla. Foto: Tim Mckenna
A BOA ONDA
Com certeza a fotografia de dentro d’água exige condições muito mais especificas do que a de fora, não é sempre que você vê fotógrafos na água. A resposta foi quase unânime sobre o mar ideal para preparar a caixa estanque e calçar o pé de pato. “As melhores ondas são as buraco, com tubo. Maresias, Paúba, Santiago, Padang Padang, Pasti, Pipe, Lobang, OTW e, claro, Backdoor. Ondas cheias não gosto de clicar dentro d’água porque trabalho normalmente com lentes grande angulares, como uma “fisheye”. Num mar de ondas cheias você acaba perdendo vários momentos com esse tipo de lente, aí prefiro fazer de fora ou usar uma meia-tele.” sentenciou Borghi. Tojal ainda vai mais um pouco além: “Outra coisa que gosto são ondas que jogam o lip lá na frente, obrigando o surfista a acelerar e não atrasar. Isso porque quando o surfista atrasa acaba levantando muita água e estraga a foto. Teahupoo, Puerto, Pipe/Backdoor, OTW, El Gringo ( nas raras vezes que o sol sai ) e o Alfa Barra, que é o pico de tradição, são bons exemplos.” E pelo material que recebemos dele, tanto dos picos gringos quanto de seu quintal de casa, assinamos embaixo das escolhas. “Com uma grande angular, o bom é uma onda não tão grande, uns seis pra oito pés, que quebre mais ou menos sempre no mesmo lugar. Acredito que a Cacimba do Padre e a Laje do Bode devam ser o exemplo clássico.” finalizou Bruno Lemos.

Mccoy, novamente Teahupoo dentro d'água. Dessa vez, ele faz o uso de um pequeno "ski" motorizado chamado seabob (www.seabob.com) e de uma phantom camera (captura imagens em 8000 frames por segundo) para seu novo filme A deeper shade of the blue (www.adeepershadeofblue.com)
CONDIÇÃO DESAFIADORA
Quem pensa que estando bom e tubular e só entrar na água se posicionar no canal e pronto, se engana. O mar te obriga a lidar com outros fatores que, na maioria das vezes, atrapalham e preocupam. Beto Paes Leme, com vasta experiência, avisa: “Situações onde há muita corrente não são ideais. Ondas forte e buraco também podem te arrastar em momentos mais críticos.” Clemente concorda: “É muito difícil fotografar com correnteza forte, e nessa condição a direita de Serrambi é a campeã.” Lemos completa: “Acho que dependendo da situação você pode usar lentes diferentes ou até ficar boiando num morey ou numa prancha para tentar melhorar as coisas quando as condições estiverem difíceis. Aqui no Havaí considero Sunset a onda mais difícil pois além da correnteza e da distância da areia, o vento geralmente sopra de um ângulo que joga muita água no “front plate”, embaçando as fotos.” Além de tudo isso, existe uma preocupação que os fotógrafos dividem com os surfistas: “Se a onda for em fundo de pedra ou coral, é ainda pior.” disse Tojal. E o perigo também pode estar nos próprios companheiros, como lembrou Borghi: “É muito difícil também quando o pico tem vários fotógrafos sem experiência que acabam atrapalhando por não saberem se posicionar.”
A HORA DO CORRE
Toda profissão tem seu lado ruim, se você quer fotografar de dentro d’água é bom já saber que é inevitável tomar umas boas ondas na cabeça. Nesse momento, a única coisa a se fazer é tentar diminuir o impacto. “No Taiti, as vezes você pode escapar das maiores da série mergulhando fundo e se colocando dentro das fendas que o recife possui. A visibilidade é tão boa que é fácil nadar perto do coral a achar uma passagem no meio do espumeiro para chegar a superfície.” explicou Tim McKenna. Borghi frisa também a experiência e calma: “Penso sempre em observar a onda de trás da que eu estou clicando pois geralmente esse é um momento que você fica mais embaixo e tem grandes chances de tomar na cabeça. O segredo mesmo é manter a calma nessas horas.” Para finalizar, Tojal lembra que uma boa estratégia não faz mal a ninguém: “Conhecer o pico é fundamental. Estudar durante alguns minutos as condições antes de entrar, contar o número de ondas da série, identificar as correntes e marcar bem seu posicionamento são atitudes fundamentais para diminuir os riscos.”

Não importa aonde, quando o mar está bom as imagens dentro d'água ficam incríveis. Arthur Bourbon na França. Foto: Borghi
OS PERRENGUES
Essa é uma palavra recorrente na vida do fotógrafo aquático: perrengue. “Um dia Pipeline estava quebrando com mais de dez pés e tive que sair do mar sem poder tomar onda na cabeça pois a caixa estanque que eu tinha feito estava entrando água. Nadei muito mesmo, mas consegui sair sem água na caixa.” Relatou Tojal. E no Havaí o negócio fica complicado, que o diga Clemente Coutinho: “Haleiwa quebrava com uns 15 pés plus, eu estava no jet ski do Edison de Paula e num vacilo fomos engolidos por uma espuma de uns 8 pés. O que me salvou foi ter acompanhado a direção em que a caixa estanque subia para superfície.” Bruno Lemos também já passou poucas e boas fotografando, e lembra um episódio marcante: “Estava fotografando na Laje do Sheraton, um swell enorme que bateu no Rio de Janeiro, 1997 ou 98. Entrou uma série imensa fechando a baía. Tomei um caldo muito violento e em um momento a caixa estanque soltou da minha mão e bateu na minha cabeça. Quase apaguei e fui arrastado pra muito perto do paredão de pedras. Foi sinsitro, maior mar que já ví no Brasil. Depois desse dia comprei uma lente para fotografar de fora d’água também, e só entro no mar com capacete e colete de tow-in, pois caso apague, o colete me leva pra superfície.”

Esse ai não quis depender de nenhum fotógrafo e surfou com a câmera na mão. Claro que a performance é prejudicada, mas as imagens captadas... Foto: Mckenna
PRÓS E CONTRAS
O pró todo mundo já sabe, uma foto boa de dentro d’água tem um valor único, a ação de perto sempre ganha dramaticidade e plasticidade. Mas existem desvantagens também em se aproximar tanto do assunto. “Em Teahupoo, numa foto feita do barco você pode realmente ver o formato único do lip e toda a força do mar, além de não perder nenhum momento da ação. De dentro d’água o resultado é incrível também, mas se assemelha mais a uma onda comum, é muito difícil mostrar todo o peso da onda. Você pode perder a onda do dia por não estar bem posicionado.” explica McKenna. “Jaws e Mavericks são lugares que é melhor você ficar em um jet-ski do que dentro d’água.” acrescenta Lemos. “Ondas gordas e mexidas não valem a pena fotografar de dentro d’água, jamais!” finaliza categoricamente Clemente.

Um surfista atento ao fotógrafo e seu posicionamento se sobressai em uma sessão de fotos dentro d'água. Álvaro Bacana de olho em Clemente Coutinho.
PARA NÃO PERDER A BOA FOTO E NEM O EQUIPAMENTO
Depois de tudo isso, algumas dicas finais de nossos mestres. “Uma boa foto depende muito da sintônia entre o surfista e o fotógrafo. É bom conversar com o cara antes de cair na água, tentar combinar um ângulo ou manobra. Mas, no fim das contas, quem se sobressai é sempre o surfista com um bom estilo.” falou Beto Paes Leme. Ricardo Borghi concordou: “O estilo mais fotogênico é aquele que tem uma linha bonita nos tubos, tem calma e sabe trabalhar com o fotógrafo…sempre que entra uma onda que vejo que vai dar um fotão grito pro cara ir!”. Clemente exemplifica: “Cito Fábio Gouveia, Carlos Burle, Marcelo Trekinho, Bruno Santos, Alexandre Ferraz e Calunga. São bons atletas de se trabalhar e sempre saio com boas fotos deles. Não a toa já fiz capa de todos.” E para não ficar na mão no outside, mais alguns cuidados: “Use um leash confiável na caixa estanque. Geralmente, uma boa caixa estanque já vem com o leash próprio, mas se precisar adaptar busque um leash usado em nadadeiras ou personalize bem um. Tenha certeza de estar seguro. Sempre confira o “o-ring” e deixe-o livre de areia. Depois de tudo, lave o equipamento com água doce.” ensina Borghi. Tojal não tem dúvidas quando o assunto é a precaução com o equipamento: “Já perdi uma câmera no Posto 5 de Copacabana em um dia pesado. Estava usando apenas uma cordinha. Hoje em dia uso duas ou três cordas, perco o braço mas não perco a câmera!”
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