Contos: Hawaii por Juliano Bório
A partir de hoje, a BW abrirá espaço em seu blog para textos enviados por nossos leitores. Podem ser contos, crÃticas ou reflexões. Mas atenção! Os textos passarão antes por uma análise de nossa equipe, caprichem…
E continuaremos abrindo espaço também aos comentários, comentem!
Para começar, vamos publicar a crônica de Juliano Bório, entitulada Hawaii:

Muitos sonham, mas são poucos que conseguem pegar uma bomba que nem essa em Pipeline, Mark Healey. Foto: Blanco
Hawaii
Estava ele diante de um dilema. Talvez o maior de sua vida. Como contar a seu pai que iria se mudar para o Hawaii? Como dizer aquele velho de barba branca que abandonaria a faculdade de engenharia, uma carreira promissora, e tantas outras coisas que estavam em jogo para ir atrás do seu verdadeiro sonho de morar no berço do surf? Como? Pensava nisso dia e noite. Noite e dia.
John Carpa era um conservador. Um dos advogados mais conceituados do paÃs. Daqueles fodões mesmo, que servia de referência até para os gringos. Teve teses publicadas mundo afora em mais de 12 idiomas. Jamais aceitaria que seu único filho tomasse outro caminho que não fosse o de vestir terno e gravata.
Mas ele estava decidido a encarar. A coragem que nunca o acompanhou, precisava mudar de lado.
Naquela manhã cinzenta de quinta-feira, após uma sessão de surf, teve um bom pressentimento. Decidiu ali mesmo, na praia, que o dia com o qual tanto sonhava seria aquele. Não podia mais adiar, até por que, pretendia partir em poucos meses. O almoço era uma ótima oportunidade.
- Pai, tem uma coisa séria que eu preciso te falar.
- Tudo bem meu filho, posso até imaginar o que seja. Mas não se preocupe, falei com seu professor e repetir uma matéria não é tão ruim assim. Eu mesmo já passei por isso.
- Matéria?
- Sim, me ligaram da faculdade preocupados com suas notas. Você sempre foi um aluno exemplar. Não era isso que tinha para me contar?
- Ah, era sim. Que bom que não ficou chateado.
- Você vai ser um grande engenheiro, meu garoto.
Nem a vaca mais cabulosa da sua vida o machucara tanto quanto aquelas palavras. Permaneceu ali por horas, sentado à mesa sem entender nada. No fundo, odiava a engenharia, a medicina, o direito, a psicologia, o jornalismo, ou o que fosse. Sabia do seu talento. Tinha sangue salgado nas veias. Amava tanto o surf que no aniversário de 10 anos pediu ao pai uma prancha. Ganhou um carrinho a controle remoto. No dia seguinte saiu de casa e foi à praia trocá-lo por uma prancha de isopor. Eles nunca entenderam isso.
Pensou em fugir. Mas não queria que as coisas fossem assim.
O desânimo agora era seu companheiro inseparável. Andava pelas ruas feito um zumbi. Isolou-se de tudo e todos, menos do mar, por questão de sobrevivência. Sua única motivação ainda era o surf, uma arte que dominava como poucos.
Seus pais logo perceberam que algo estava errado e o mandaram para um psiquiatra. Mas, antes, se quer o perguntaram o porquê de tudo aquilo. Depois de meses, o caso foi diagnosticado como depressão profunda. E era. Até o surf foi ficando de lado, por conta dos remédios tarja preta. Sua vida não tinha mais sentido. O caso era mesmo delicado.
Tentaram outros médicos. E nada.
Sem saberem mais o que fazer, tomaram uma atitude radical: mandá-lo para o exterior. Podia ser que lá, longe de tudo aquilo, voltasse a ter gosto pela vida.
- Meu filho, eu e sua mãe tomamos uma decisão.
- Outro psiquiatra?
- Não, vamos mandá-lo para fora do Brasil. Pode ser que lá você encontre um sentido para a vida novamente. Pensamos em vários lugares, mas como sempre percebemos seu amor pelo surf, mesmo sem entendê-lo, imaginamos que o Hawaii seria um bom lugar. Todo mundo que surfa gosta de lá, não é mesmo?
As palavras deram lugar às lágrimas. E o gosto pela vida adoçou sua boca novamente.

Quem sonha muito pode dormir no ponto. Foto: Blanco

OTW daquele jeito. Foto: Blanco
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