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Home > 44 | Materia > Publicado em 25 de fevereiro de 2010

Na hora certa

Há quanto tempo você não surfa boas ondas sem ninguém por perto? E não pergunto só quanto a viagens, mas também aonde mora, aonde sempre surfou. Faça chuva ou faça sol, cedo pela manhã ou bem no finzinho de tarde, sempre tem alguém caindo ao redor e, por mais que não te atrapalhe, faz número, e você deixa de estar sozinho. Uns não acham isso ruim, estar com mais um ou dois dentro do mar, ainda mais se forem amigos. Mas pense em surfar todo dia com mais trinta, cinquenta, cem! Não existe amizade que resista.

Marcelo Tchelão, olho no tubo e na hora certa para pega-lo na Paúba. Foto: Borghi

Marcelo Tchelão, olho no tubo e na hora certa para pega-lo na Paúba. Foto: Borghi

Estima-se que chega a vinte milhões o número de praticantes de surfe ao redor do planeta. O wannasurf.com, uma espécie de Atlas das ondas na internet, lista em seu banco de dados 8290 picos em quase 150 países. Uma média, portanto, de 2.412,5 surfistas para cada lugar onde uma onda quebra. Claro, sabemos que o wannsurf não lista todos os picos existentes e não sabemos a frequencia e nem os horários que cada surfista desse contigente vai à praia, mas mesmo assim são números preocupantes. Se pensarmos mais ainda, existem fatores agregadores de crowd: lugares mais visados, picos em cidades populosas, ondas que só quebram poucos dias no ano. Ou seja, podem ter milhões de pessoas de olho naquele tubo para a esquerda, ou naquela valinha perfeita de direita, e você é só mais uma delas.

Para driblar essa calamidade, durante muito tempo a saída foi viajar para cada vez mais longe, até achar um lugar virgem ou raramente frequentado. Mas quando as fronteiras se expandem, as possibilidades diminuem e, atualmente, corre-se o risco de ter a viagem dos sonhos frustrada por um outro grupo de surfistas exploradores, ou de turistas com dinheiro de sobra. O crowd está aonde menos se espera. A real, nos dias de hoje, é ter uma boa estratégia para surfar no lugar certo e na hora certa, no quintal de sua casa ou no pico mais clássico de Bali. Estar sempre antenado nas condições e previsões é essencial. Quando o swell encaixar com o vento e a maré exata, você não vai querer ser o último a saber. Ser um estrategista se tornou melhor do que ser aventureiro.

As vezes, vale a pena prolongar um pouco mais a remada até pouco antes de escurecer. Igor Morais na melhor hora do seu dia. Foto: Borghi

As vezes, vale a pena prolongar um pouco mais a remada até pouco antes de escurecer. Igor Morais na melhor hora do seu dia. Foto: Borghi

Bruno Santos, em recente viagem à Indonésia, surfou sozinho um dos picos mais disputados do mundo e, pasmem, numa época ultra-badalada. “Estava no período do WCT em Padang, Bali. As previsões indicavam um swell não muito forte. Geralmente a galera vai para Desert Point quando fica grande, mas resolvi ir para lá do mesmo jeito. Poucas pessoas foram conferir e as ondas só apareceram mesmo no terceiro dia, ou seja, dos poucos que arriscaram menos ainda ficaram, a maioria voltou junto no segundo dia a noite. Esperei mais um dia e me dei bem, o mar subiu do nada e ficou sem crowd, cheguei a surfar quarenta minutos sozinho. Confesso que não era o melhor Desert Point da vida, mas estava muito bom, e o melhor de tudo, sem crowd!” Sorte grande.

A hora da maré pode ser primordial na Indonésia. SNI em Greenbush. Foto: Ashton

A hora da maré pode ser primordial na Indonésia. SNI em Greenbush. Foto: Ashton

Só que nínguem precisa viajar à picos de reputação internacional para reparar no excesso de pessoas no line up. Viver em uma grande cidade a beira mar é ter que conviver com o crowd. Nesse caso, a boa estratégia ajuda ainda mais na hora de ir surfar. Aliás, é exatamente a hora de ir surfar o primeiro ponto a ser relevado por quem não quer disputar ondas com mais ninguém. Normalmente o horário do almoço costuma ser o mais vazio e o fim de tarde mais tranquilho que pela manhã, ao menos que você consiga madrugar. Mas a quantidade de pessoas é relativa, sucetível as condições, não só do mar mas também, e talvez principalmente, do clima. Quanto mais frio, menos gente. Se tem chuva então, o número cai pela metade. Mas a sorte grande mesmo pode estar para quem fica de olho no vento. Alguns dos dias mais clássicos e menos cheios são aqueles em que uma mudança inesperada trouxe o vento certo e, em poucos minutos, aquele mar desarrumado ficou lisinho. E do mesmo jeito que chega do nada, ele pode ir embora do nada, ou seja, quem souber a hora certa e o pico certo quando está soprando do quadrante X, pode se dar muito bem e, melhor de tudo, sozinho!

Existe ainda outro grande segredo para surfar com poucos. Fugir dos lugares mais frequentados pelos surfistas, é óbvio, mas o que quero dizer, na verdade, é procurar os lugares menos frequentados. Não, isso não significa ir atrás de secrets spots. Como já falamos, o espírito aventureiro/explorador tomou conta da maioria dos surfistas ao redor do mundo, díficil encontrar um secret que ainda seja “secret”. Pense na direção contrária, existem picos que todos conhecem, mas que quase nunca dá onda, só que quando dá… Um bom exemplo é Copacabana, Rio de Janeiro. A praia, talvez, mais famosa do mundo, por diversos motivos que não o surfe, passa desapercebida a maior parte do ano por nós quando, ou está uma piscina ou fechando tudo na beira. Mas uma combinação de fatores pode transforma-la em um beach break poderoso e tubular. Quando isso acontece, a notícia demora a correr tempo o bastante para alguns sortudos usufruirem do pico ainda vazio. Ninguém tem o costume de ir lá conferir frequentemente e nem deveria. O crowd, na maior parte das vezes, fica por conta de alguns moradores, mas se lembra da chuva, frio e vento? Pode ser que num dia desses nem os próprios estejam na água.

Confira a edição completa desta matéria.

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